Portugal precisa de respirar, por João Pedro Baltazar Lázaro [Português]

Portugal precisa de respirar

Autor: João Pedro Baltazar Lázaro (Colaborador)

Fuente: https://goo.gl/s1AY6C

 

Toda a gente sabe qual é o lugar que está cheio de boas intenções. Mas eu pergunto: e as más, onde estão?

Por simples medo de que as minhas intenções possam ser mal-interpretadas, devo calar-me e não posso apresentar uma opinião pacificamente? É assim que funciona a democracia?

Eu sou professor de línguas em Madrid. Recentemente, tive de explicar a alguém o significado de um termo em inglês: groupthink. Pensamento em grupo: quando há um debate e uma ideia começa a tornar-se dominante, as pessoas, temendo o conflito, começam a aceitar tacitamente essa ideia prematuramente, e sentem como que seria politicamente incorrecto falar de uma maneira diferente ou tentar acrescentar ideias novas. Evitar o conflito interno é uma preocupação pertinente, mas não creio que seja por isso que não possamos debater diferentes perspectivas com cordialidade, humildade, e um profundo respeito implícito entre os membros do grupo, mesmo acima de quaisquer discrepâncias que possa haver entre nós.

Ora recentemente senti um problema semelhante em dois grupos distintos, porque falei de ideias diferentes daquelas que parecem ser as prevalentes: um, nos meus círculos de debate iberista, fazendo-me ver que tenho de escolher ainda melhor as minhas palavras; o outro… no meu próprio país, atingindo-me em cheio no coração.

O artigo que escrevi antes deste continha uma palavra muito poderosa: federalismo. Tal é o poder dessa palavra que, por um lado, agradou a muitos iberistas, mas também ofendeu aqueles iberistas que apenas querem falar de “confederalismo”, ou seja, de uma associação de estados ibéricos independentes, e que não passe nunca desse ponto: que não entremos em debates sobre soberania e não formemos nunca um único país.

Por outro lado, evidentemente, ofendi profundamente alguns amigos portugueses que, como aqueles confederalistas, aceitariam uma maior integração entre os nossos países mas nunca a unificação, ainda que com um sistema de federação com direito a secessão.

Eu não sou, nem quero ser, um déspota. Eu não defenderei nunca, cegamente e a qualquer custo, a ideia de uma unificação.

Estou a escrever isto para pedir desculpa por ter ferido a sensibilidade daquelas pessoas, e para deixar claro que eu já me contentaria, e muito, com a Confederação de Estados Ibéricos Independentes que o Partido Iber propõe, maximizando a integração entre os nossos países, mesmo sendo rejeitada a ideia do federalismo que poderia caracterizar a fase seguinte na história dos nossos países, unindo-os num só.

Mas também estou a escrever isto para deixar claras as razões pelas quais falei de federalismo:

1) Rejeito por completo o ódio doentio entre a Espanha e Portugal, amo a Espanha praticamente tanto como Portugal, e quero ser uma voz que fala de reconciliação e camaradagem entre nós, porque vozes rancorosas e odiosas já há muitas;

2) Tenho noção de que a confiança e a amizade não pode ser incondicional, que amar outro país tanto como o meu não é incompatível com ter um mínimo de cautela no convívio e nas negociações com esse país, para garantir a segurança do meu próprio povo, que não posso iludir-me com a ideia de que uma união política nunca poderá acarretar quaisquer problemas, e que a cautela dos iberistas que não desejam falar de federalismo não é um simples sintoma de pensamento de grupo mas sim uma preocupação razoável;

3) Enquanto nós aqui na Península estamos “entretidos” a lutar uns contra os outros, a despejar ódio e a fazer por vender cada um a sua visão nacionalista peculiar, entretanto estão os gigantes militares e económicos deste mundo a rir-se de nós, sem que possamos fazer nada para lhes resistir, e eu acredito que unidos num só país teríamos uma maior capacidade de competir no mercado internacional, fazer valer os nossos interesses comuns, e também criar as sinergias económicas que nos permitiriam procurar uma maior prosperidade com os nossos aliados;

4) Acredito, sinceramente, que “alguém” deveria ponderar seriamente como seria, do ponto de vista legislativo, a visão de uma “União Ibérica” se, digo SE, um dia o destino nos levar à unificação, porque se ninguém pensar nisso agora então no futuro tudo será feito sem um objectivo claro, de improviso, com as leis que convierem a quem por acaso esteja no poder quando isso acontecer, e isso pode ser ainda mais perigoso do que falar hoje de federalismo.

Mas eu não vou, repito, não vou defender uma unificação incondicional, não se realmente for contra a vontade do povo português, e vou contentar-me com uma Confederação de Estados independentes se de facto é o melhor para Portugal.

Então, perguntam-se, porque é que não retiro simplesmente tudo aquilo que disse?

Porque, por muito ilógico, paradoxal e rebuscado que isto possa parecer, eu estou a tentar defender Portugal.

O iberismo, como qualquer outra ideologia política, é uma ideologia que pode atrair todo o tipo de pessoas, tanto boas como más. Mas esta ideologia tem a particularidade de atrair gente que está interessada, especificamente, numa união política com Portugal. Isso tanto pode ser por amor como por oportunismo. E se de facto vier alguém com más intenções, e se não houver portugueses iberistas que tentem estar atentos a isso, então corremos o risco de deixar corromper-se a própria ideia do iberismo. É por isso que eu digo: se os iberistas fossem todos espanhóis, então quem faria em nome dos portugueses?

Eu tenho todo o respeito pelos iberistas que já posso dizer que tive tempo para conhecer pessoalmente. Mas à medida que novas pessoas se forem aproximando, eu continuarei a estar atento ao seu carácter, às palavras que possam ir denunciando visões que reduzam a identidade portuguesa, aos sinais que mostrem que o que se pretende não é propriamente uma convivência amigável entre os povos dos nossos países.

Imaginemos que eu nunca na vida me interessava pelo iberismo, e que todos os eventos decorreriam sem qualquer contribuição da minha parte para o debate iberista. Imaginemos que o iberismo prosperava e a Península Ibérica era unificada daqui a um par de anos, sem nunca ninguém ter falado de “federação com direito a secessão”, prevalecendo apenas um sentimento, implícito nas mentes das pessoas, de que tudo vai ser pacífico e tudo vai correr bem. E imaginemos o pior, dos piores, dos piores casos possíveis:

Que dentro do iberismo teria prevalecido, por falta de interesse no confronto de ideias, ou por pensamento de grupo, um sentimento anexionista, ou nacionalista, camuflado. Que a corrupção política, já problemática nos nossos países, se tornaria ainda pior por causa dessa união política; que as promessas seriam quebradas e os acordos seriam esquecidos; que a Espanha procuraria castelhanizar Portugal em vez de aceitar o convívio saudável das nossas culturas; que Portugal começava a sentir-se maltratado e desiludido com a união; que Portugal passava a exigir a separação; e que a Espanha decidia responder a Portugal com força militar para impedir a separação; e que não havia sequer a mínima salvaguarda legal para impedir essa aplicação de força militar e para garantir que as mentalidades, comportamentos e posturas dos nossos respectivos governos tivessem sido guiadas ao longo do tempo precisamente no sentido de se afastarem tanto quanto possível desse confronto militar. Imaginemos a guerra aberta. O genocídio à jugoslava. O irredentismo de quem fica com o quê depois da guerra. As acusações mútuas incessantes. A clássica problemática de que “a história é escrita pelo vencedor”, o mundo a dar razão a uma parte e a desprezar a outra como sempre faz. As atrocidades vitoriosas celebradas como heroísmo e as atrocidades derrotadas desprezadas como crimes de guerra. Imaginemos o amor ibérico completamente em cinzas.

Pensar assim assusta. Não é verdade?

Pois é esse mesmo grau de tristeza, esse nojo, que o ódio entre a Espanha e Portugal me faz sentir, sempre que algum português insulta indiscriminadamente os espanhóis ou vice versa. E quando vejo um espanhol que sente que os portugueses são inferiores, sinto a mesma coisa. E quando um português silencia por força outro português iberista, a mesma coisa. E quando um espanhol diz que somos traidores históricos à Espanha, exactamente a mesma coisa. E quando ouço um espanhol dizer que “os portugueses são espanhóis”, algo quase do mesmo calibre.

Creio que os iberistas muito raramente, se alguma vez o fazem, se atrevem a pensar num caso tão extremo. Mas eu pergunto… Se não queremos estar preparados para tentar compreender as catástrofes que queremos impedir, então não teremos caído todos no pensamento de grupo? Se um não se atreve a exprimir que pensou nestas coisas, teve medo e quis propor uma solução, então não poderá isso apenas aumentar o perigo de essas coisas virem mesmo a acontecer?

Vender nacionalismo, nesta era do Brexit, seja ele português ou espanholista ou o que for, é fácil. Isso foi exactamente o que a Alemanha Nazi fez, e todos sabem qual foi o resultado. A resolução dos conflitos, especialmente entre irmãos, deve ser com compaixão e diálogo justo, não com mais e mais divisão, e com esse mesmo desejo de todas as partes, não apenas de algumas. Promover paz, vender concórdia e reconciliação, isso sim, é muito, MUITO difícil. Portanto vender nacionalismo, comparado com o oposto, para mim, é cobardia.

Os portugueses são como os espanhóis; não são “iguais”. Têm mais em comum do que por vezes querem ver; mas sim, iguais também não somos, e dizer que somos iguais é o que nos assusta, porque tememos que possa esconder uma pretensão anexionista. Isso é o medo português de que já falei. E se a ideia de uma unificação sufoca Portugal assim tanto, eu não insistirei nela; continuarei a falar dela como algo que eu preferiria se fosse possível, mas certamente não tentarei forçá-la. Portugal precisa de espaço para respirar e para existir. E é por isso que eu próprio permanecerei vigilante, procurando compreender o carácter das pessoas que se vão interessando pelo iberismo.

Mas não exijam que peça desculpa por amar toda a Espanha quase tanto como Portugal.

Não exijam que retire o que disse.

Não tentem obrigar-me a escolher entre Portugal e a Espanha.

Não tentem reprimir-me por ter passado a vida inteira a querer libertar-me do ódio em todas as suas formas, especialmente para com um país que tem tanto em comum connosco.

Não tentem fazer de mim o criminoso e o traidor por abraçar a solidariedadea empatiaa reconciliação, e acima de tudo a compaixão, como aquilo que devem ser, agora e sempre, os verdadeiros fundamentos de todo o pensamento iberista, e por querer fazer toda a Espanha ver que é esse o caminho que protege tanto a Espanha de si própria como Portugal da Espanha.

Não tentem humilhar-me por recusar-me a abraçar o ódio nacionalista, esse veneno, essa monstruosidade, essa atrocidade que me desgasta, que me entristece, que me desilude, que me deprime, que me destrói por dentro.

Porque eu também tenho liberdade de expressão e também preciso de espaço para respirar.

 

«Naturalmente, as pessoas comuns não querem guerra, nem na Rússia, nem na Inglaterra, nem na América, nem na Alemanha. Isso é compreensível. Mas, afinal, são os líderes do país que determinam a política e é sempre uma simples questão de manipular o povo, seja numa democracia, ou numa ditadura fascista, ou num parlamento, ou numa ditadura comunista. A população pode sempre mudar de opinião. Isso é fácil. Tudo o que é preciso fazer é dizer-lhes que estão a ser atacados, e denunciar os pacifistas por falta de patriotismo e expor o país ao perigo. Isso funciona da mesma maneira em qualquer país.»

— Hermann Wilhelm Göring, 1946

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